O Forte de São Julião da Barra é considerado a maior fortificação da linha Lisboa Cascais antes da entrada em Lisboa. Construído no século XVI, durante o reinado de D. João III, passou a ser conhecido como o “Escudo do Reino”, por estar exatamente no ponto onde o rio Tejo encontra o oceano Atlântico, junto à Praia da Torre, entre Oeiras e Carcavelos, com a função de proteger a entrada marítima da capital portuguesa. Pela sua dimensão e importância estratégica, é também uma das mais relevantes estruturas militares da história de Portugal.

Com uma história que atravessa séculos, o Forte de São Julião da Barra vai muito além da sua função militar. Construído para proteger a entrada do rio Tejo e defender Lisboa de ameaças marítimas, tornou-se também palco de episódios marcantes da história política e social do país, como a prisão de jesuítas durante o período do Marquês de Pombal e a execução do general Gomes Freire de Andrade, em 1817. Ao longo dos anos, foi sendo ampliado e adaptado, até ser desativado como estrutura militar em 1947. Classificado como Imóvel de Interesse Público desde 1957, o forte permanece sob a tutela do Ministério da Defesa Nacional, sendo atualmente a residência oficial do Ministro da Defesa de Portugal.
Como tudo começou: a origem do Forte de São Julião da Barra
Antes da construção do forte, existia no local uma ermida, uma pequena capela dedicada a São Gião, forma antiga e popular de São Julião, santo que daria nome à fortificação. Era conhecida pelos relatos de curas e milagres entre romeiros, o que acabou por atrair a atenção do rei D. Manuel I. Segundo registros históricos, o monarca visitava o local não apenas pela devoção, mas também pela vista estratégica sobre o mar e a entrada do Tejo. Foi essa combinação que o levou a recomendar ao seu sucessor, D. João III, a construção de uma fortificação naquele ponto, dando origem ao atual Forte de São Julião da Barra.
A construção do forte teve início em 1553, durante o reinado de D. João III, como resposta à necessidade de modernizar a defesa de Lisboa, que até então dependia principalmente do Castelo de São Jorge e de estruturas antigas. A estratégia passou a focar na proteção da entrada do Tejo, com a criação de fortificações posicionadas diretamente na foz do rio. O objetivo era controlar o acesso marítimo à capital e proteger Lisboa de ataques, incluindo incursões de piratas que frequentemente ameaçavam a costa portuguesa.
A Torre do Bugio e o seu curioso nome ligado ao macaco
O nome “Bugio” tem uma origem incerta, mas existem algumas explicações curiosas. Uma delas associa o termo ao macaco bugio, conhecido pelo seu som forte e característico, possivelmente relacionado ao estrondo dos canhões disparados a partir da torre. Outra versão sugere uma origem no francês “bougie” (vela), pela semelhança da estrutura com uma vela acesa sobre o mar. Há ainda quem defenda que o nome esteja ligado a um tipo de bate-estacas chamado “bugio” em Portugal, utilizado em construções sobre a água.

Portugal sob domínio espanhol: os 60 anos da União Ibérica
A relevância do forte ficou evidente em diversos momentos decisivos da história de Portugal. Em 1580, após a morte do rei D. Sebastião e a ausência de um herdeiro direto, Portugal entrou numa crise de sucessão que abriu espaço para a intervenção de Espanha. Aproveitando esse cenário, tropas espanholas invadiram o país e cercaram o Forte de São Julião da Barra, que acabou por se render, permitindo o avanço dos espanhóis até Lisboa. Este episódio marcou o início da União Ibérica, período em que Portugal passou a ser governado pelos reis de Espanha, ficando sob domínio da Coroa espanhola durante cerca de 60 anos. Esse domínio terminou em 1640, com a Restauração da Independência, quando o país recuperou a sua soberania e o forte voltou a assumir um papel estratégico.
Napoleão em Portugal: a tomada do forte pelos franceses
Em 1807, durante as invasões napoleónicas, o forte foi novamente ocupado pelas tropas francesas. A presença de Napoleão em Portugal fazia parte de uma estratégia mais ampla para enfraquecer a Inglaterra, sua principal rival, já que Portugal mantinha uma aliança histórica com os britânicos e recusou aderir ao bloqueio continental imposto pela França, uma política económica que proibia os países europeus de comerciar com os ingleses. Nesse contexto, controlar Lisboa e o acesso ao Atlântico tornava-se fundamental, reforçando mais uma vez a importância estratégica do Forte de São Julião da Barra na defesa da capital.
A intervenção inglesa e a retomada do forte de São Julião da Barra
Um ano depois, forças britânicas intervieram em Portugal para expulsar os franceses, reforçando a aliança histórica entre Portugal e a Inglaterra. A partir daí, os ingleses passaram a exercer forte influência não apenas na organização militar, mas também nas decisões políticas do país. Nesse cenário, o Forte de São Julião da Barra voltou a integrar o sistema defensivo da região.
O lado mais sombrio do forte: prisões e poder
O Forte de São Julião da Barra assumiu ao longo dos séculos um papel marcante e sombrio como prisão política. Um dos episódios mais relevantes ocorreu no século XVIII, durante o governo do Marquês de Pombal, quando dezenas de jesuítas foram ali encarcerados após a expulsão da ordem de Portugal.
Já no início do século XIX, quando Portugal permanecia sob forte influência britânica após a expulsão dos franceses, o forte voltou a ser palco de um dos episódios mais polémicos da história militar do país, com a prisão do General Gomes Freire de Andrade. Militar de destaque e associado a ideias liberais, foi acusado de conspiração contra o regime então vigente, fortemente influenciado pelos ingleses. Detido no forte, acabou por ser condenado e executado por enforcamento nas proximidades. A forma da execução por enforcamento, considerada desonrosa para um militar do seu nível, gerou grande impacto na sociedade da época e contribuiu para que se tornasse uma figura marcante da luta contra o autoritarismo.