+351 91 252 9806 brunabarros@kwportugal.pt

Ao observar qualquer mapa de Lisboa, é impossível não reparar em uma enorme mancha verde dominando a zona ocidental da cidade. Esse território contínuo, que contrasta com o tecido urbano ao redor, é o Parque Florestal de Monsanto, a maior área verde da capital portuguesa e um dos espaços mais peculiares da cidade.

Com cerca de mil hectares, Monsanto é mais do que um parque urbano. Dentro de seus limites existem mirantes, áreas de lazer, zonas de conservação ambiental, instalações militares, equipamentos desportivos, trilhos naturais e até uma prisão em funcionamento. Essa diversidade faz com que o parque tenha uma identidade única, onde natureza, história e usos inesperados convivem no mesmo espaço.

Antes do verde: Monsanto antes de se tornar parque

Há pouco mais de cem anos, a paisagem de Monsanto era completamente diferente da que se vê hoje. As encostas da serra de Monsanto, o ponto mais alto de Lisboa, eram áridas e degradadas, resultado de séculos de desmatamento, exploração de calcário e uso agrícola intensivo.

O solo da região é rico em calcário, formado há dezenas de milhões de anos por processos geológicos ligados ao choque das placas tectônicas. Esse material foi amplamente explorado ao longo do século XIX para abastecer a construção civil e a industrialização de Lisboa. Como consequência, a área ficou marcada por pedreiras, minas abandonadas e terrenos empobrecidos, sem cobertura vegetal consistente.

O forte, a prisão e a presença militar em Monsanto

Antes mesmo do projeto de reflorestamento, Monsanto já tinha importância estratégica. Em 1863, durante o reinado de D. Luís I, foi iniciada a construção do Forte de Monsanto, integrado a um sistema defensivo pensado para proteger Lisboa. A obra foi concluída em 1878 e, ao longo do tempo, o forte passou por diferentes funções.

No início do século XX, a estrutura foi transformada em prisão militar e, após a Primeira Guerra Mundial, passou a receber também presos civis. De forma surpreendente para quem associa parques urbanos apenas a lazer, essa prisão continua ativa até hoje, funcionando como estabelecimento de alta segurança. Monsanto é, portanto, um dos raros parques urbanos do mundo que convivem com uma prisão em pleno funcionamento dentro de seus limites.

O reflorestamento de Monsanto no século XX

A transformação de Monsanto em um grande parque florestal começou a ganhar força na década de 1930. Diante da degradação ambiental da serra e da necessidade de criar uma barreira verde para a cidade, o então ministro das Obras Públicas, Duarte Pacheco, liderou um ambicioso projeto de reflorestamento.

O plano contou com a colaboração do arquiteto paisagista Keil do Amaral, cujo nome hoje batiza uma das principais alamedas do parque. O trabalho de plantio envolveu agricultores da região e também prisioneiros do Forte de Monsanto, que participaram ativamente da recuperação ambiental da área. Árvores foram introduzidas de forma sistemática, moldando a paisagem florestal que hoje caracteriza o parque.

O inesperado circuito de corridas em Monsanto

Na década de 1950, Monsanto assumiu um papel completamente inesperado. Suas estradas sinuosas e variações de relevo passaram a ser usadas como circuito automobilístico. O chamado Circuito de Monsanto recebeu provas internacionais, incluindo etapas não oficiais da Fórmula 1.

Em 1959, o parque sediou o Grande Prêmio de Portugal, com vitória do piloto britânico Stirling Moss. O traçado era considerado desafiador e perigoso, aproveitando curvas fechadas e desníveis naturais da serra. Poucos vestígios físicos dessa fase permanecem visíveis hoje, mas quem percorre os caminhos do parque ainda consegue imaginar carros de corrida atravessando curvas que hoje são usadas por ciclistas e corredores.

O mirante panorâmico e as marcas do abandono

Outro capítulo curioso da história de Monsanto é o antigo Restaurante Panorâmico, inaugurado em 1968. O edifício foi construído com vários pavimentos e uma vista de 360 graus sobre Lisboa, funcionando como um ponto de encontro com forte apelo visual.

O restaurante teve vida curta e, após poucos anos, foi fechado. Ao longo das décadas seguintes, o espaço teve usos pontuais e acabou abandonado. Hoje, o edifício permanece como um marco visual no topo do parque, coberto por grafites e cercado, despertando interesse de visitantes e fotógrafos. Mesmo sem acesso ao interior, o local reforça a atmosfera singular de Monsanto, onde projetos ambiciosos deixaram marcas visíveis na paisagem.

Monsanto hoje: lazer, conservação e vida ao ar livre

Atualmente, o Parque Florestal de Monsanto é dividido em diferentes áreas com funções específicas. Existem zonas de conservação ambiental, parques de lazer, áreas recreativas, espaços para piqueniques e o Parque de Campismo de Monsanto. Trilhas para caminhada, corrida e ciclismo atravessam grande parte do parque, tornando-o um dos principais espaços de atividade ao ar livre em Lisboa.

Entre os destaques estão áreas como o Parque do Alvito, o Alto da Serafina, o Parque dos Moinhos de Santana e o Parque Ecológico, que protege dezenas de hectares de vegetação. Ao explorar Monsanto, é comum encontrar antigos moinhos, estruturas abandonadas, miradouros improvisados e trechos de floresta densa que fazem esquecer, por alguns momentos, que se está dentro de uma capital europeia. Saiba mais sobre o parque

Um parque estranho, mas essencial para Lisboa

Monsanto não é um parque convencional, e talvez seja exatamente isso que o torna tão especial. A convivência entre natureza, história militar, equipamentos urbanos e usos inesperados cria um espaço complexo e cheio de contrastes. Para os moradores de Lisboa, o parque funciona como uma válvula de escape, um lugar para respirar, praticar esportes e se reconectar com o verde.

Mais do que um simples espaço de lazer, o Parque Florestal de Monsanto é um testemunho de como uma área degradada pode ser transformada ao longo do tempo. Ao caminhar por seus trilhos, vale lembrar que aquela floresta densa já foi um conjunto de colinas áridas, pedreiras e terrenos explorados. Hoje, Monsanto cumpre um papel fundamental na qualidade de vida da cidade e permanece como um dos espaços mais intrigantes e valiosos de Lisboa.