No início do século XVI, a Europa praticamente já não tinha memória viva do que era um rinoceronte. O último contacto com um animal desse tipo remontava à Antiguidade romana, mais de treze séculos antes. Para a maioria das pessoas, tratava-se quase de uma criatura lendária, conhecida apenas por relatos antigos e descrições vagas. Foi nesse contexto que, em 1515, começou a circular uma notícia extraordinária: um rinoceronte vinha a caminho de Lisboa como presente vindo da Índia para o rei D. Manuel I.

O animal fora oferecido pelo sultão de Cambaia como presente ao rei de Portugal, num gesto diplomático. D. Manuel I era conhecido pelo fascínio por animais exóticos e mantinha na corte em Lisboa um pequeno zoológico, onde reunia criaturas vindas dos territórios ultramarinos. Elefantes, felinos, aves raras e outros animais despertavam enorme curiosidade na corte e na população, sendo por vezes exibidos em ocasiões públicas e até em desfiles, para grande entusiasmo dos lisboetas.
O rinoceronte foi então embarcado rumo a Portugal em longa e demorada viagem. O navio partiu de Goa e levou cerca de quatro meses para chegar a Portugal, com escalas em Moçambique, Santa Helena e nos Açores. Esse intervalo foi suficiente para que a notícia do rinoceronte se espalhasse muito antes da sua chegada. Quando o navio finalmente se aproximou do estuário do Tejo, a expectativa já era enorme. As pessoas reuniram-se no porto para ver um animal que muitos nem sequer sabiam que existia, e que poucos conseguiam imaginar daquela forma: imenso, com cerca de duas toneladas, e com uma pele espessa dividida em placas que lembravam uma armadura natural.
Como um rinoceronte foi parar na Torre de Belém
A chegada do rinoceronte a Lisboa coincidiu com o período em que a Torre de Belém começava a ser construída na zona ribeirinha onde atracavam as grandes embarcações vindas da Índia. O impacto causado pelo animal foi tão grande que acabou por ser incorporado simbolicamente na própria arquitetura do monumento. Na Torre de Belém, ainda hoje é possível identificar a figura do rinoceronte esculpida numa gárgula, um detalhe discreto, mas carregado de significado.
A presença do rinoceronte na Torre de Belém dialoga diretamente com o espírito do estilo manuelino, que incorpora símbolos do mundo natural e dos territórios ultramarinos para transformar a arquitetura numa narrativa visual da época dos Descobrimentos, quando animais, pessoas e símbolos vindos de outros continentes passavam a integrar o imaginário e a paisagem de Lisboa.
A luta do rinoceronte com o elefante de D. Manuel I
Para testar a ferocidade do rinoceronte recém-chegado a Lisboa, D. Manuel I decidiu organizar um confronto entre o animal e um elefante que fazia parte do pequeno zoológico mantido na corte. O episódio ocorreu numa arena improvisada junto ao Palácio da Ribeira, no local onde hoje se encontra o Terreiro do Paço, e despertou enorme curiosidade. No entanto, o tão esperado combate entre os dois animais gigantes não chegou a acontecer. O elefante, ainda jovem e assustado com o ambiente, a presença do rinoceronte e a gritaria das pessoas reunidas para assistir ao espetáculo, virou-se e fugiu, rompendo o portão da arena e correndo até ao Rossio, encerrando assim um dos episódios mais curiosos da Lisboa quinhentista.
O destino trágico do rinoceronte de Lisboa
Depois de causar enorme impacto em Lisboa, o rinoceronte acabou envolvido num episódio tão extraordinário quanto a sua chegada, porém trágico. D. Manuel I decidiu enviá-lo como presente ao papa Leão X, numa nova demonstração de prestígio e diplomacia, seguindo o mesmo gesto que já havia feito pouco antes ao oferecer um elefante ao Vaticano. Em dezembro de 1515, o animal foi novamente embarcado, desta vez com destino a Roma. Durante a viagem pelo Mediterrâneo, o navio fez escala na costa francesa, onde o rei Francisco I teve a oportunidade de ver o rinoceronte de perto. Pouco depois de retomar a viagem, a embarcação naufragou ao largo da costa italiana, próximo de Villefranche-sur-Mer, e o rinoceronte morreu afogado, ainda preso ao convés.
..mas a história do rinoceronte não acabou ali!
Após o naufrágio: O rinoceronte de Lisboa eternizado
Após o naufrágio que causou a sua morte, o corpo do rinoceronte foi recuperado, enviado de volta a Lisboa e mandado empalhar por ordem de D. Manuel I, sendo depois remetido para Roma. Embora o rinoceronte empalhado não tenha causado o mesmo impacto que o animal vivo, ele serviu como referência visual para artistas e estudiosos. Ainda assim, o processo de empalhamento da época distorcia formas e proporções, o que explica por que muitas representações posteriores não correspondem com exatidão à anatomia real do animal.
A imagem mais famosa desse período é a gravura de 1515 feita por Albrecht Dürer, que nunca viu o rinoceronte ao vivo e baseou o seu trabalho em descrições e esboços enviados a partir de Lisboa. Por isso, a obra apresenta imprecisões evidentes, como a pele representada como uma espécie de armadura segmentada, patas cobertas por escamas e um pequeno segundo chifre sobre o dorso, elemento inexistente num rinoceronte real. Apesar disso, a gravura teve enorme difusão e foi considerada durante séculos uma representação fiel do animal. Já em Itália, artistas ligados ao círculo do Vaticano, incluindo Rafael Sanzio e Giovanni da Udine, utilizaram o rinoceronte empalhado como referência em frescos e estudos decorativos. Em Portugal, o impacto do animal ficou também registado na arquitetura, com a sua representação numa gárgula da Torre de Belém e numa gárgula do Mosteiro de Alcobaça. Assim, mesmo sem precisão científica, o rinoceronte de Lisboa tornou-se um dos símbolos visuais mais marcantes do espanto europeu perante o mundo recém-descoberto.

A Torre de Belém e o rinoceronte como símbolo da época
A história do rinoceronte de Lisboa está intimamente ligada à Torre de Belém, tanto no tempo quanto no significado. A chegada do animal coincidiu com os anos iniciais da construção da torre, numa Lisboa que se afirmava como porta de entrada e saída do império marítimo português. A Torre de Belém não era apenas uma fortificação defensiva, mas também um monumento de representação, pensado para marcar simbolicamente o poder régio e o alcance global de Portugal. Nesse contexto, a presença de um rinoceronte vindo da Índia tornou-se um emblema perfeito desse mundo em expansão. Não por acaso, o animal acabou eternizado numa gárgula da torre, um detalhe discreto mas carregado de sentido, que traduz o espírito do estilo manuelino e a forma como a arquitetura portuguesa incorporava elementos exóticos, naturais e simbólicos para narrar, em pedra, a epopeia dos Descobrimentos.

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