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Fui ao Museu Nacional dos Coches esperando encontrar uma coleção de antigas carruagens da família real portuguesa e confesso que encontrei muito mais do que isso. Bastaram alguns minutos dentro do museu para eu perceber que aquela visita seria muito mais interessante do que eu imaginava.

Fundado em 1905 pela rainha D. Amélia, o Museu Nacional dos Coches reúne hoje mais de 70 veículos históricos de diferentes países, que atravessam cerca de quatro séculos de história. Segundo o próprio museu, trata-se da mais importante coleção de viaturas de gala do mundo.

Carruagens antigas museu dos coches Belém
Carruagens conhecidas como Carros Triunfais, construídas para a Embaixada de D. João V ao papa Clemente XI, em Roma, em 1716.

Caminhar pelo museu é acompanhar, quase em ordem cronológica, a transformação da maneira como reis, nobres e depois a própria sociedade se deslocavam. Mas é também entender como um coche podia funcionar como demonstração de poder, como casamentos reais eram instrumentos de diplomacia e como pequenas inovações, das correias de couro às molas de aço, foram tornando as viagens mais confortáveis até que comboios e automóveis mudaram tudo novamente.

Comecei a ler as pequenas placas ao lado de cada veículo e descobri que aqueles coches não contam apenas a história de como reis e rainhas se deslocavam. Eles contam uma história de poder, riqueza, diplomacia, casamentos entre as grandes casas reais europeias e até da maneira como Portugal queria ser visto pelo restante do mundo.

E contam também uma história que eu não esperava encontrar ali: a evolução dos transportes.

Ao percorrer o museu em ordem cronológica, vemos as antigas carruagens suspensas por correias de couro ganharem novas suspensões, molas de aço, travões, lanternas e rodas revestidas de borracha, até chegarmos ao final do século XIX e aos primeiros automóveis. Entrei para conhecer antigas carruagens e acabei percorrendo quase quatro séculos de história dos transportes.

Quando uma carruagem era uma demonstração de poder

Durante séculos, coches e carruagens não serviam apenas como meios de transporte. Para as grandes casas reais europeias, eram também símbolos de riqueza, prestígio e poder.

Um dos primeiros exemplos que encontrei no Museu dos Coches foi construído em 1666 e oferecido por Luís XIV, o Rei Sol da França, à sua prima Maria Francisca de Sabóia por ocasião de seu casamento com D. Afonso VI de Portugal.

A decoração não era apenas estética. Na parte traseira do coche, a Realeza é representada por uma figura feminina coroada, sentada num trono e segurando um cetro. Os frutos que aparecem na composição simbolizam a prosperidade do Reino.

Outro exemplo extraordinário é o Coche de D. Maria Ana de Áustria. Construído em 1708 por ordem do imperador José I da Áustria para o casamento de sua irmã com D. João V, o veículo é coberto por talha dourada, leões coroados, as armas de Portugal e os monogramas da futura rainha.

Museu dos Coches em Lisboa: uma viagem por quatro séculos de história
Coche de D. Maria Ana de Áustria, uma das viaturas de aparato expostas no Museu Nacional dos Coches.

Até as rodas carregavam simbolismo: seus doze raios foram desenhados de forma a lembrar cetros.

Esses detalhes ajudam a entender algo que se repete ao longo da visita: os coches também eram instrumentos de representação. Antes mesmo de seus ocupantes descerem, o veículo já comunicava a posição, a riqueza e o poder de quem estava chegando.

D. João V e os coches que impressionaram Roma

No início do século XVIII, Portugal vivia um período de enorme riqueza durante o reinado de D. João V, impulsionado principalmente pelo ouro que chegava do Brasil. Parte dessa riqueza foi utilizada pelo rei para reforçar a imagem e a influência de Portugal entre as grandes potências europeias.

Um dos exemplos mais extraordinários aconteceu em 1716, quando D. João V enviou a Roma uma luxuosa embaixada ao papa Clemente XI. A comitiva portuguesa percorreu as ruas da cidade em coches construídos especialmente para a ocasião, transformando a chegada numa verdadeira demonstração de poder.

Entre eles estavam os chamados Carros Triunfais, ricamente decorados com esculturas e alegorias relacionadas à expansão marítima portuguesa.

Coche dos Oceanos, um dos carros triunfais da embaixada de D. João V enviada a Roma em 1716.
Coche dos Oceanos, um dos carros triunfais construídos para a embaixada enviada por D. João V ao papa Clemente XI, em Roma, em 1716.

Um dos mais impressionantes é o Coche dos Oceanos. Na parte traseira, duas figuras representam os oceanos Atlântico e Índico de mãos dadas, numa referência à ligação entre os dois oceanos estabelecida pelos portugueses através da rota do Cabo da Boa Esperança.

Outro é o Coche da Coroação de Lisboa, cuja composição representa Lisboa sendo coroada pela Fama e pela Abundância, acompanhada por figuras que simbolizam a África e a Ásia.

Nada daquela decoração estava ali por acaso. Os coches funcionavam como uma narrativa visual das conquistas portuguesas e da posição que D. João V pretendia afirmar para Portugal perante Roma e as demais cortes europeias.

A embaixada também teve consequências importantes para Lisboa. Pouco depois, a Capela Real foi elevada à condição de Basílica Patriarcal e Lisboa passou a contar com a dignidade de Patriarcado.

A “berlinda” trouxe mais conforto às viagens

No final do século XVII surgiu um novo tipo de veículo que representou uma importante evolução em relação aos coches tradicionais: a berlinda. O nome vem justamente de Berlim, cidade onde esse modelo começou a ser utilizado.

A principal diferença estava na forma como a caixa onde viajavam os passageiros era montada. Na berlinda, ela ficava entre dois varais e era sustentada por grandes correias de couro, solução que proporcionava maior estabilidade e conforto durante as viagens.

[IMAGEM DE UMA BERLINDA]

Pode parecer uma mudança pequena hoje, mas basta imaginar as estradas da época para entender sua importância. Viajar significava enfrentar caminhos irregulares durante horas, ou mesmo dias, dentro de veículos com sistemas de suspensão ainda bastante rudimentares.

O surgimento da berlinda mostra algo que fica cada vez mais evidente conforme avançamos cronologicamente pelo Museu dos Coches: além do luxo e da decoração, havia uma constante busca por veículos mais estáveis, confortáveis e eficientes.

A partir daqui, essa evolução tecnológica começa a ficar cada vez mais perceptível.

Das carruagens aos automóveis: a evolução dos transportes ao longo dos séculos

Depois dos grandes coches de aparato, a própria exposição começa a mostrar outra história: a evolução tecnológica desses veículos. Durante séculos, foram surgindo soluções para tornar as viagens mais estáveis, confortáveis e seguras. As enormes caixas suspensas por correias de couro deram lugar a sistemas de suspensão cada vez mais sofisticados, enquanto travões, lanternas, capotas e rodas revestidas de borracha foram sendo incorporados às carruagens.

É interessante observar essa transformação em ordem cronológica, porque muitas dessas inovações que hoje parecem simples representavam mudanças importantes para quem precisava enfrentar durante horas, ou mesmo dias, as estradas irregulares daquela época.

  • Séculos XVII e início do XVIII: os grandes coches tinham caixas pesadas suspensas por grandes correias de couro. Elas ajudavam a absorver parte das irregularidades do caminho, embora o balanço durante as viagens ainda fosse considerável.
  • Final do século XVII e século XVIII: surge a berlinda, desenvolvida em Berlim. A caixa passa a ser montada entre dois varais e sustentada por grandes correias de couro, proporcionando maior estabilidade e conforto. É uma das primeiras mudanças importantes que percebemos ao comparar os veículos da exposição.
  • Século XIX: os sistemas de suspensão tornam-se muito mais sofisticados, com molas de aço em diferentes configurações, como molas em C, elípticas e semi-elípticas. Alguns veículos combinavam diferentes tipos de molas ou utilizavam quatro pontos de suspensão para absorver melhor os impactos e reduzir o balanço da carruagem.
  • Ao longo do século XIX: as melhorias vão muito além da suspensão. Aparecem travões, lanternas, capotas dobráveis, bancos adicionais, compartimentos para bagagem e rodas revestidas de borracha. As carruagens tornam-se mais leves, funcionais e adaptadas a diferentes necessidades.
  • Final do século XIX: depois de séculos aperfeiçoando veículos puxados por cavalos, a evolução chega a um ponto de ruptura. Em vez de desenvolver uma suspensão melhor, uma roda mais confortável ou um sistema de travagem mais eficiente, surge uma tecnologia que elimina justamente aquilo que todos esses veículos tinham em comum: os cavalos.

O Landau do Regicídio

Uma das carruagens mais impressionantes do museu não chama atenção pelo luxo, mas pela história que carrega. Em 1º de fevereiro de 1908, a Família Real portuguesa seguia neste Landau pela Praça do Comércio, em Lisboa, quando sofreu o atentado que matou o rei D. Carlos I e o príncipe herdeiro D. Luís Filipe. A própria carruagem preserva até hoje as marcas das balas disparadas durante o regicídio.

Landau do Regicídio no Museu Nacional dos Coches em Lisboa

Das carruagens aos automóveis: quando os cavalos deram lugar ao motor

Depois de séculos aperfeiçoando as carruagens, no final do século XIX as carruagens puxadas por cavalos começaram a dar lugar aos primeiros automóveis modernos, movidos a gasolina. Em 1895, chegava a Portugal o primeiro automóvel a circular no país, apenas nove anos depois de Karl Benz ter patenteado, na Alemanha, o Benz Patent-Motorwagen, considerado o primeiro automóvel moderno da história.

O veículo que chegou a Portugal era um Panhard & Levassor, importado de Paris. Tinha motor a gasolina de dois cilindros e 1.300 cm³, apenas 3 cavalos de potência e atingia uma velocidade máxima de 26 km/h.

Panhard & Levassor de 1895, primeiro automóvel a circular em Portugal, em exposição no Museu Nacional dos Coches, em Lisboa.
Panhard & Levassor de 1895, o primeiro automóvel a circular em Portugal, adquirido em Paris por Jorge de Avilez, 4.º Conde de Avilez

E a história desse primeiro automóvel português guarda uma curiosidade: durante a sua primeira viagem, entre Lisboa e Santiago do Cacém, o veículo atropelou um burro perto de Palmela, naquele que é considerado o primeiro acidente automobilístico registrado em Portugal.

A chegada do automóvel marcava o início de uma transformação que aconteceria rapidamente. Depois de séculos desenvolvendo suspensões, travões, rodas e outras soluções para tornar as carruagens cada vez melhores, o grande salto tecnológico acabaria sendo substituir aquilo que todas elas tinham em comum: os cavalos.

O que mais você encontrará no museu

Os coches e carruagens são as grandes estrelas do museu, mas o acervo inclui também uma série de objetos que ajudam a entender como funcionava todo esse universo dos transportes ao longo dos séculos.

Durante a visita, encontramos selas, arreios, acessórios de cavalaria, fardamentos, instrumentos musicais utilizados em cortejos e outros objetos ligados às viagens e às cerimônias da corte. Alguns ajudam a perceber a complexidade que existia por trás de uma simples deslocação real, que podia envolver cocheiros, cavaleiros, criados, músicos e dezenas de cavalos.

Mala-Posta: a carruagem dos Correios no século XIX

Antes dos trens e dos automóveis, os Correios utilizavam carruagens conhecidas como Mala-Posta para transportar correspondências entre cidades. Elas também levavam passageiros e bagagens. Em 1859, a viagem entre Lisboa e Porto durava cerca de 34 horas e passava por 23 estações de muda, onde os cavalos eram substituídos para que a viagem pudesse continuar.

Mala-Posta, carruagem dos Correios no Museu Nacional dos Coches em Lisboa

Como visitar o Museu Nacional dos Coches em Lisboa

O Museu Nacional dos Coches fica em Belém, na Avenida da Índia, 136, a poucos minutos a pé de alguns dos principais pontos turísticos da região.

O museu funciona de terça-feira a domingo, das 10h às 18h, com última entrada às 17h30. Às segundas-feiras permanece fechado.

O bilhete normal custa €15. Jovens entre 13 e 24 anos, visitantes com 65 anos ou mais e famílias com pelo menos um adulto e um menor têm desconto de 50%, pagando €7,50. Crianças até 12 anos têm entrada gratuita. Os horários, preços atualizados e informações sobre bilhetes podem ser consultados diretamente no site oficial do Museu Nacional dos Coches.

Para chegar de transporte público, uma das opções mais fáceis é o elétrico 15. Também é possível utilizar os autocarros 714, 727, 728, 729 e 751 ou o comboio da Linha de Cascais, descendo na Estação de Belém. Para quem vai de carro, o museu dispõe de estacionamento na Avenida da Índia exclusivo para visitantes.

Eu reservaria pelo menos uma hora e meia para a visita. Se você gosta de história e pretende parar para ler as informações ao lado das carruagens, como fiz durante a minha visita, duas horas passam facilmente.

Aproveite a visita para conhecer Belém

O Museu Nacional dos Coches fica em uma das regiões mais interessantes de Lisboa para quem gosta de história, arquitetura e cultura. Por isso, vale reservar algumas horas a mais para aproveitar a visita e conhecer Belém com calma.

A poucos minutos a pé estão o Mosteiro dos Jerónimos, a Torre de Belém e o Padrão dos Descobrimentos, três lugares diretamente ligados à história de Portugal e das grandes navegações. Na mesma região ficam ainda o MAAT, o Centro Cultural de Belém e os jardins junto ao Tejo.

Outra atração que vale conhecer é o Museu Quake, que fica praticamente ao lado do Museu Nacional dos Coches. A experiência interativa recria o terremoto de 1755, um dos acontecimentos mais marcantes da história de Lisboa, permitindo entender como era a cidade antes da tragédia, o que aconteceu naquele dia e como Lisboa foi reconstruída posteriormente.

E é praticamente impossível passar por Belém sem conhecer os famosos Pastéis de Belém, produzidos no mesmo local desde 1837.

Grande parte dessas atrações está relativamente próxima, o que permite conhecer a região caminhando e transformar a visita ao Museu dos Coches em um passeio de várias horas por Belém.